Até que pare de arder
Porque, quando lemos, tentamos extrair coincidências com o pensamento próprio, identificação, lição, discordância ou admiração pela facilidade em pôr em palavras o que não conseguimos, vale a citação:
“(…) Então se lembrou de uma frase: Não tente me convencer de que não estou sofrendo. Um clássico de Sofía: um desses estilhaços que o amor esculpe e deixa cravados num órgão a que só ele tem acesso, de modo que sobrevivem a tudo, até mesmo à extinção do amor, e passam a ser essenciais para o organismo onde se incrustaram, a tal ponto que ninguém pode retirá-los sem pôr em risco a vida de seu portador. Mudou de tática e decidiu distraí-la. Porque há estados de alma tão incandescentes que abordá-los é simplesmente renovar seu ardor e arder, alimentar sua capacidade de fogo e danar-se; só é possível, então, afastar o olhar, olhar para outra coisa, fazer de conta que ainda resta algo no mundo que as chamas não consumiram, até que o tempo, única força realmente invulnerável, capaz de afetar sem ser afetada, faça seu trabalho e o que era brasa viva seja por fim o tênue eco de um calor, uma cinza inofensiva.” (Alan Pauls, em O Passado).
Que bom! Assim que puder venho te ler aqui.
Publicado 1 year, 11 months agoVolte sempre pros lados de lá.
Beijo!