Piña Colada Frozen



Por uma vida

A primeira vez que coloquei os olhos nele foi há 10 anos. Lindo. Alto. Largo. Sorriso largo. Charme em pessoa. Paixão imediata. Não demorou muito até ficarmos pela primeira de tantas vezes. Noite fria, calor intenso. Começou ali uma história que insiste em não acabar.

Na época ainda mais emocional do que hoje – porque se os anos fazem bem, trazem maturidade e mais equilíbrio da emoção com a razão - logo caí de quatro por ele. O jeito evasivo e distante dele só ajudaram. Quando descobri a faceta de mulherengo e conquistador de quem quisesse, já era tarde. Por anos me deixei enrolar. Na época, era vítima. Hoje, vejo que fiz parte do jogo. Deixei. Como todo bom apaixonado inexperiente, empurrava os limites para mais longe, ultrapassando as linhas, uma a uma, até que ele não visse limite no abuso.

E sofri, vi o objeto da minha paixão me maltratar, cultivar afeições por outras, quando o que eu mais queria é que ele só me visse, quisesse só a mim. Ouvi barbaridades, chorei, e mais, achei que não ia passar. Porque quando estávamos juntos, era tudo tão bom. Havia tanta identidade, tanta intimidade, riso solto, astral de quem já se conhece há tempos, energia de outra vida ou o que quer que chamem. E quando eu achava que estava esquecendo, ele voltava, intenso, irresistível. 

Mas, num belo dia, passou. Uma coisa boba, uma palavra deslocada dele pôs fim a tudo. A gota d’água num copo imenso de desilusões. Chega!

Distância, sumiço, cada um tomou seu rumo.

Quando terminei um namoro de anos, saí à noite e o encontrei. Dessa vez seria diferente. Ele não me perderia de novo, disse, com aquela cara linda que só tinha melhorado com o tempo. E o bis foi ainda melhor do que antes. A segunda fase de um grande amor, que agora iria em frente.

Ligou no dia seguinte, e no outro, e no outro. E as defesas antes armadas foram arrefecendo, a dureza do coração amolecendo, o medo desaparecendo. E caí de novo. Por tantos momentos mágicos, por tanta troca, por tanta felicidade do encontro, não resisti e me apaixonei de novo.

Não demorou para que degringolasse, quando descobri, após algumas semanas, que ele estava namorando. Não, não tinha terminado, não tinha acabado de terminar, nem estava em vias de. Estava namorando enquanto esses momentos mágicos aconteceram comigo. Se ele terminasse, ela ameaçava suicídio. Essa foi a pior que ouvi. Mas foram várias outras desculpas. Por mais um tempo, vivi de migalhas.

Aí que me distanciei, vivi outros amores, e passou de novo. Um que me tratava como rainha, me ensinando que podia ser sim muito bem cuidada e amada, outro que por mim nutria uma atração enlouquecida, me mostrando que eu podia ter quem eu quisesse. Um “pra casar”, outro definitivamente não. Na verdade nenhum dos dois. E fui mudando, crescendo, conhecendo quem eu mesma era, o que eu podia, o que queria pra mim.

Mas ele não largava o osso. Tentava se fazer presente, embora eu dissesse que não dava mais, que não tinha mais jeito.

Então os outros amores foram embora e em um momento de baixa, nada de muito interessante acontecendo, depois de várias mensagens dele, resolvi ceder e liguei. Assim, na madrugada, como ele costumava me ligar antes. Não, dessa vez eu não queria amar. Dessa vez eu já estava vacinada. Realmente. Anticorpos fortalecidos. Cabeça diferente, sonhadora ainda, mas ciente e consciente de ele não era pra mim. Porque as afinidades sumiram com o tempo, a não ser a do fácil convívio, mas os planos, os objetivos, as visões, os mundos são tão diferentes que gerariam mais sofrimento para aparar as arestas do que alegria de estar junto depois de tanto tempo.

Porque de fato não era meu desejo. Caso fosse, sabe Deus, eu lutaria. Nunca fui de desistir fácil. Mas eu não queria mais. Só tinha um problema: ele queria. Não só ficar comigo, não só completar o vazio da madrugada, o conforto, o carinho. Ele queria namorar! Queria casar, ter filhos, dois ou três, precisava de pouco pra viver, nós, um amor, uma cabana, um violão, que era o que ele estava me oferecendo.

E eu, eu queria só preencher o vazio da madrugada. De um dia de chuva.

Tudo o que eu queria antes e não mais agora se transformou no que ele queria agora, e não antes. E eu o quero bem, mas não o quero pra mim.

Tanto que eu lutei, tanto que eu fiz pra isso acontecer. E agora que acontece, já não quero mais. Me sinto vendo o filme de fora, de longe, sem a emoção que me tomava antes. Agora o sentimento era mais de satisfação. De ter, embora tão fora de hora, tudo aquilo que eu desejava.

Há 10 anos. Se se pode dizer que 10 anos são uma vida, então por uma vida vivo essa história. E não vai ter fim, eu sei. Não é o fim que eu imaginei no começo, não é o fim que ele quer agora e que eu tanto sonhei, por anos, e que agora desprezo porque sei que não me serve. Mas que não é o fim, isso não é. Por uma vida ele está na minha, e por uma vida eu estou na dele. Ainda. Por uma vida.


Comentários

  1. Juliana disse:

    Lindo isso. :}

    Publicado 1 year, 7 months ago
  2. Srta. Bia disse:

    Dez anos é mesmo uma vida, é tanto tempo… Tenho uma amiga que está atrelada a um cara há dez anos e ele já pisou e já maltratou e eles devem ter vivido seus momentos bons, mas sabe… não digo mais nada, porque não adianta falar é ela quem tem que perceber.
    Sou meio durona nessa parte, nunca ligo de madrugada, apago telefones, rasgo cartas, tudo. É um verdadeiro fim e se depender de mim nunca mais vejo, nunca volto. Pelo menos foi assim, até hoje.

    Publicado 1 year, 6 months ago
  3. mybluemoleskine disse:

    Obrigada, Juliana.
    Srta. Bia, acho que você está certa. Sempre pensei que deveria, mas não conseguia fazer o mesmo. E não tem explicação razoável. É melhor cortar o mal pela raiz. E quanto à sua amiga, acho que, realmente, não adianta muito falar. Mas chega o momento em que cai a ficha. Pena que às vezes demore tanto. O que consola é que o mundo gira. Beijos.

    Publicado 1 year, 6 months ago


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